São Paulo, 467: nada a comemorar - Ecoo

São Paulo, 467: nada a comemorar

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por Nabil Bonduki* –

Nunca a cidade passou um aniversário tão triste, sem receber presentes e com tantas perdas de vidas e de lugares

Claro que nenhum aniversário seria comparável com a abertura dos festejos do 4º Centenário, em 25 de janeiro de 1954, quando foi inaugurada a Catedral da Sé e, nos meses seguintes, o Parque do Ibirapuera e muito mais. São Paulo estava nas alturas…

Nem com a festa do 450º aniversário, em 2004, quando a sede da prefeitura mudou para o Viaduto do Chá, instalando-se em um Edifício Matarazzo reformado, e um imenso cortejo cultural tomou conta das ruas, no prenúncio do que veio a ser a Virada Cultural.

Nos 25 de Janeiro, São Paulo sempre recebeu presentes. Alguns saudados com alegria, como a Linha Paulista do metrô, em 1991, e outros que já nasceram odiados, como o Minhocão, em 1971.

Em 1984, foi no dia do seu aniversário que São Paulo foi palco da maior manifestação contra a ditadura: o ato pelas Diretas Já. Uma festa da cidade e da democracia, com 250 mil pessoas na Praça da Sé.

Desde 2014, o aniversário tem sido brindado com eventos culturais espalhados por toda a cidade. Em 2020, foram mais de 300! Inesquecível foi 2016, quando uma multidão seguiu Daniela Mercury do Largo da Batata à Praça da República, em um desfile que celebrou a abertura do Carnaval de Rua daquele ano e marcou a pujança de São Paulo nas festas carnavalescas.

Nas atuais circunstâncias, o aniversário de 2021 só podia ser de luto. A cidade está interditada para o que tem de melhor: reunir gente interessante no espaço público e em lugares interessantes. Em plena 2ª onda, nem pensar.

Nesse contexto, teria sido simbólica e bem-vinda a ideia original de Doria: iniciar a vacinação contra a Covid 19 no aniversário da cidade. Ainda mais se ocorresse em conjunto com a campanha nacional, sem reforçar a fama de arrogância paulista.

Nem isso. A sanha do governador em se antecipar para sair na frente (e bem na foto), não só mostrou que o marketing tinha prioridade em relação ao planejamento como nos privou de comemorar algo relevante no aniversário da cidade.

Sem nada de positivo no horizonte, só sobraram notícias ruins para São Paulo.

O prefeito Bruno Covas, quinze dias após sua posse, tirou licença, por motivo de saúde, e não está em exercício no aniversário da cidade. Seu substituto, o vice-prefeito Ricardo Nunes, é desconhecido dos paulistanos, não tendo participado de nenhum debate com os demais candidatos a vice nem concedido entrevistas durante a campanha.

Em dez meses, a cidade perdeu 24.447 vidas para a Covid-19, entre confirmados e suspeitos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, ou seja, dois em cada mil paulistanos.

Na última semana, 529 pessoas faleceram na capital em uma segunda onda da pandemia que está longe de arrefecer. A vacinação levará meses para gerar resultados e apesar da euforia inicial, a verdade é que dependemos da China para ter os insumos para a fabricação da vacina.

As aulas na rede municipal estão suspensas desde março de 2020 e não há previsão de quando serão retomadas. Os pais não sabem como planejar suas vidas.

No ano em que está prevista a revisão do Plano Diretor, o prefeito extinguiu, sem consulta pública, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano. O órgão foi fundido e absorvido pela Secretaria de Licenciamento, que cuida da aprovação de edificações.

A população em situação de rua continua a crescer, com famílias despejadas passando a se abrigar em barracas cada vez mais presentes nas calçadas da cidade. Sem auxílio emergencial, a miséria se espalha pela cidade e o prefeito decidiu, clandestinamente, eliminar a gratuidade do transporte coletivo para os idosos entre 60 e 64 anos.

Teatros icônicos, como o Paiol e o Itália encerraram definitivamente suas atividades, enquanto outros tradicionais, como o Maria Della Costa e o Ruth Escobar estão fortemente ameaçados. Toda a cadeia da cultura, do lazer e do entretenimento corre o risco de colapso.

Cerca de 25% dos bares e restaurantes fecharam as portas. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que 12 mil estabelecimentos desapareceram no estado. Lugares que foram referências na cidade, como o Marcel, com 65 anos; o Pasv, na Avenida São João há 50 anos; Abu-Zuz, que opera no Brás desde 1989; o Filial e o Sabiá, tradicionais bares da Vila Madalena; e La Frontera, na Consolação, desapareceram da cidade.

Aos 467 anos, a cidade está de luto, pelas vidas e lugares perdidos. A riqueza da vida de uma metrópole é reunir pessoas em lugares interessantes: bares, restaurantes, casas noturnas, cinemas, teatros, shows, exposições e museus e serviços qualificados. Não podemos perder mais. Quando a vacinação avançar, vamos precisar muito desses lugares para recuperar a vida urbana.

Longe de ser uma festa, o aniversário de São Paulo em 2021 tinha que ter sido um momento de reflexão coletiva em busca de uma estratégia para superar a crise que vivemos. A resposta não surgirá de forma burocrática, em gabinetes ou em decisões opacas, mas em arenas públicas e transparentes, agregando todos os segmentos de sociedade.

Isso se aplica, inicialmente, ao enfrentamento da pandemia. O prefeito (inclusive em debates eleitorais) e o governador demoraram irresponsavelmente a reconhecer a segunda onda.

Agora, tomam medidas pouco eficazes e equivocadas, como reduzir horários de funcionamento do comércio e fechar bar e restaurantes estruturados (que cumprem protocolos de segurança sanitária) após as 20h e nos finais de semana, que prejudicará esses setores sem gerar os resultados esperados.

Enquanto isso, se omitem na fiscalização aos pontos de aglomeração, explícitos ou clandestinos, que se proliferam pela cidade e onde não se usa mascaras nem se mantém isolamento físico.

Espero que o prefeito se recupere integralmente e, ao reassumir a prefeitura após o merecido descanso, inicie um novo estilo de gestão, rompendo a falta de transparência e democratizando a tomada de decisões. Que reative o Conselho da Cidade para que a pujante sociedade organizada possa participar e ajudar a enfrentar esse momento difícil.

São Paulo merece esse presente no seu aniversário.

Nabil Bonduki
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secretário de Cultura de São Paulo.



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