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Educação, Trabalho e Pós-Capitalismo

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por Roberto Rafael Dias da Silva, Outras Palavras – 

Modelo escolar atual foi desenvolvido, ao longo do século XX, para formar mão-de-obra industrial. Mundo agora é outro, mas há quem acredite que a escola era melhor antigamente… Provocações para construir um ensino radicalmente novo

A educação profissional, em nosso país, surgiu assentada na dicotomia entre o pensar e o fazer. Em decorrência da divisão social do trabalho (e das classes sociais) entendíamos que a educação com foco profissionalizante deveria ser ofertada para as camadas mais pobres da população. Um marco nesta breve digressão histórica foi a criação da Escola de Aprendizes e Artífices, pelo presidente Nilo Peçanha, no ano de 1909. A partir da década de 1930, como decorrência de nossas experiências de industrialização no país, assistimos ao esforço político destinado à formação de recursos humanos, atendendo ao conjunto de diferentes exigências sociais e econômicas.

No decorrer da primeira metade do século passado, então, o Estado brasileiro engendrou um conjunto de dispositivos com ênfase na profissionalização e na preparação de nossas juventudes para o novo cenário. O ensino médio e a educação profissional – ora em ação articulada, ora separadamente – receberam um conjunto de investimentos políticos, dentre os quais poderíamos retomar: a) a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública (1931); b) as redefinições da educação secundária na reforma de Francisco Campos; c) a criação do sistema S (1942); d) o posicionamento das escolas federais como autarquias (1959). Em termos políticos, poderíamos afirmar que o Estado brasileiro, ao priorizar um modelo de desenvolvimento econômico centrado na industrialização, redefiniu alguns princípios e modelos formativos para a educação e inserção profissional das juventudes.

Em termos acadêmicos, também nos deparamos com reações aos modelos que predominaram e, da mesma forma, conseguiram propor alternativas críticas. Desperta nossa atenção nesta literatura a prioridade nas relações entre educação e trabalho, acompanhada de uma preocupação com a formação humana multidimensional (politécnica, omnilateral, dentre outras adjetivações). Nesta tradição apregoa-se a necessidade de justapor a formação acadêmica e a formação profissional, priorizando as importantes articulações entre cultura, ciência e tecnologia com o mundo do trabalho industrial.

Os modelos curriculares engendrados na segunda metade do último século assentavam-se sob os pilares da sociedade industrial e das formas subjetivas que dela se derivavam. Eram currículos focalizados na acumulação de conhecimentos e experiências, com uma formação a longo prazo e modelados pelas aptidões requeridas pelo mundo laboral. Seletivos na entrada e com altos índices de abandono e reprovação escolar, tais cursos orgulhavam-se de contribuir com uma mão-de-obra qualificada para o desenvolvimento do país. Todavia, com o advento de uma nova morfologia do trabalho (explicada por Ricardo Antunes) e com a própria reconfiguração psíquica do mundo do trabalho (desenvolvida por Vladimir Safatle), os modelos curriculares centrados na profissionalização foram colocados em xeque.

À medida em que o trabalho se reconfigura e a subjetividade do trabalhador – investidor de si mesmo em um cenário de precarização estrutural – é exposta à flexibilização neoliberal, precisamos colocar sob interrogação o futuro da educação profissional, bem como das possibilidades de escolarização juvenil. Concordo com François Dubet, sociólogo francês, que a atitude a ser evitada neste momento é a de “nostalgia sobre a escola do passado, cujos defeitos se apresentam pouco a pouco”. Tal atitude nostálgica, que estranhamente tem predominado na tradição progressista, não nos permite produzir novas reflexões: que articulem a inovação educativa com a governança escolar democrática e que busque por modelos curriculares mais plurais.

Uma literatura crítica, de caráter heterodoxo, pode nos auxiliar a reenquadrar nossos debates sobre esta temática. Indicarei duas possibilidades a serem consideradas neste texto com foco em uma educação pós-capitalista. A primeira contribuição busco em Bruno Latour e nas novas demandas por orientação política no Antropoceno. A nomeada repolitização da ecologia trouxe o reconhecimento de que a atual crise que experimentamos impacta diferentes nuances da vida humana. Tenho me interrogado sobre os direcionamentos dos cursos profissionalizantes para pensar este novo regime climático. Que direcionamentos podem ser considerados em nossos currículos? Que experiências formativas precisam adquirir maior evidência?

A segunda contribuição podemos localizar em Michel Serres, em sua obra “Polegarzinha”, ao descrever as mudanças sociais contemporâneas que estão em curso – modificando as relações que as crianças e os adolescentes estabelecem com o mundo. Essas novas subjetividades acessam ao conhecimento de outros modos, inventam novos laços e estabelecem específicas conexões com os saberes e as experiências. No que tange ao trabalho, especificamente, Serres instiga-nos a pensar que a Polegarzinha aspira construir sua narrativa de vida para além da produtividade e deseja encontrar propósitos diferenciados para sua relação com o trabalho. Nas palavras do filósofo, poderíamos interrogar: “Nascido com a revolução industrial e copiado do ofício divino dos monastérios, estará o trabalho, hoje em dia, pouco a pouco morrendo?”.

Com estas duas provocações, interessa-me colocar em evidência que os currículos de nossos cursos de educação profissional precisam atualizar a sua agenda de preocupações. Para além dos clássicos debates entre ensino propedêutico e disciplinas especializadas – saber e fazer –, é momento de enfrentarmos a reconfiguração subjetiva de nossos estudantes, os novos modos de relação com o trabalho e os impactos da repolitização da ecologia. Outros pontos, certamente, precisam ser levados em consideração; todavia, para este texto, a preocupação encontra-se em mobilizarmos coletivamente novas interrogações acerca das relações entre escola, trabalho e educação pós-capitalista. Em outras palavras, não podemos responder a atual crise da educação profissional reforçando os modelos modernizadores do capitalismo industrial!


Referências:

LATOUR, Bruno. Onde aterrar? – Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro:Bazer do Tempo, 2020.

SERRES, Michel. Polegarzinha. 3a ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2018.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Entre a compulsão modernizadora e a melancolia pedagógica: a escolarização juvenil em tempos de pandemia no Brasil. Práxis Educativa, v. 15, p. 1-12, 2020. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/342701767_Entre_a_compulsao_modernizadora_e_a_melancolia_pedagogica_a_escolarizacao_juvenil_em_tempos_de_pandemia_no_Brasil

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Customização curricular no Ensino Médio: elementos para uma crítica pedagógica. São Paulo: Cortez Editora, 2019.

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