Antonio Nobre: O planeta está enfermo – é preciso 'reajardiná-lo' - Ecoo

Antonio Nobre: O planeta está enfermo – é preciso ‘reajardiná-lo’

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Já tem 16 anos que a gente trabalha em colaboração. Publicamos muitos trabalhos mostrando os mecanismos da bomba biótica de umidade até o ponto de perceber que a forma mais efetiva de lidar com as mudanças climáticas não é somente parar de emitir gases poluentes – CO2, metano, óxido nitroso, todos os gases que ajudam a aquecer o planeta.

A forma necessária, indispensável, para regular o planeta é restaurar os ecossistemas da Terra, porque foram os ecossistemas da Terra que mantiveram e que geraram este ambiente confortável, este clima amigável que temos o privilégio de ter na Terra. Não existe nenhum outro corpo celeste conhecido com condições semelhantes e a única explicação que nós temos aqui é a vida. Então, o que tem que se fazer? Restaurar a vida na Terra, restaurar a vida. Tem um outro nome para isso, em inglês se chama rewildingwild de selvagem, re de reconstruir o selvagem, reconstruir a natureza. Nos últimos 200 anos, a humanidade aniquilou três trilhões de árvores grandes. Três trilhões, ou seja, metade do que a Terra tinha. Então, você imagina um pinguço cortando metade do fígado fora, o fígado que processa o álcool. Foi o que a gente fez. A gente cortou metade das florestas do mundo e é por isso que o aquecimento global está acelerando. Também por conta da poluição, mas não é só a poluição, o principal é a destruição dos órgãos que mantém o planeta funcional e amigável.

Concluindo: esse processo na ciência é muito lento. Veja o caso de Gaia. Em 1974 saiu o livro do Lovelock e da Lynn Margulis e depois foi controvérsia, controvérsia, controvérsia, e só começou a virar uma unanimidade agora em 2017, em 2018 – mais de 40 anos a gente perdeu no processo. Agora não temos mais esse tempo. Claro que a teoria da bomba biótica também foi controversa, mas não tanto quanto a hipótese de Gaia. Já tem muita gente aceitando, mas tem uma banda de meteorologistas que odeia a teoria, acha que está errada porque mostramos algumas inconsistências na disciplina deles. Está atrasando, não está chegando. Então o que a gente resolveu fazer? O mesmo que a gente fez com os rios voadores. Os rios voadores eram uma coisa meio lateral, que existia desde 1992. Dois americanos, acho que são irmãos, descreveram um aerial river para explicar um fenômeno de uma inundação na Califórnia. Mas, depois, o conceito ficou meio pegando poeira nos escaninhos da ciência. Em 2004, o José Marengo descreveu os jatos de baixos níveis, os monções da América do Sul, que explicavam mais ou menos o transporte de umidade da Amazônia para o centro-sul da América do Sul. Antes disso, em 1979, o professor Enéas Salati já tinha sugerido uma ligação entre a evaporação da floresta Amazônica e as chuvas no Sul, Sudeste do Brasil, mas ficou nisso.

Aí eu encontrei o Gérard Moss, que é aviador, e a Margi Moss, esposa dele. Eles eram empreendedores, tinham feito o projeto Brasil das Águas – pousaram com um hidroavião em todos os rios e lagos do Brasil pegando amostras e mandando para limnólogos. Eu dei a ideia para o Gérard: ‘Por que você não segue os rios de vapor na Amazônia?’. Ele pegou a ideia e depois convidamos cientistas – o professor Salate, o Carlos Nobre, o José Marengo. Fizemos um grupo e montamos o projeto Rios Voadores. Esse projeto trabalhou muito a comunicação. Em 2008, saiu uma reportagem no Fantástico. Em 2009, na BBC, um documentário belíssimo. Em 2010, dei uma palestra no TED e a história foi ficando sexy, atraente, capturou a imaginação das pessoas antes de tornar-se uma unanimidade científica. Mas a ciência veio atrás, ocorreu uma retro-fertilização. De 2012 para frente, saíram artigos na Nature e outras revistas científicas sobre os rios aéreos da Amazônia. Hoje já é um fenômeno consolidado.

N.G.: Sobre o grupo da bomba biótica, como é esse projeto e quanto tempo temos?

A.N.: Formamos o Biotic Pump Greening Group como um grupo internacional de cientistas e sabedores, e a nossa proposta é, ao estudar sistemas e mecanismos de Gaia, entender como é que funciona. E um dos lugares que nós mais nos aprofundamos nesse entendimento foi a Amazônia. Como a América do Sul foi aquinhoada com esse berço esplêndido? Por que a Amazônia é o que é? Por que ela teve a capacidade de sobreviver por mais de 50 milhões de anos aos cataclismos planetários? Nesse período de 50 milhões de anos, a Terra foi impactada por meteoros, passou por aquecimento e resfriamento, teve as glaciações, correntezas oceânicas e atmosféricas mudaram, e a floresta Amazônica aguentou firme. Estudando esse fenômeno de florestas autorreguladas pudemos desenvolver a teoria da bomba biótica.

A teoria da deriva dos continentes demorou décadas décadas para ser demonstrada. Hoje, é matéria básica para qualquer geólogo, não tem um geólogo que não sabe que os continentes se deslocam. Mas demorou 70 anos até ser aceita. Gaia, 40 anos. Para a bomba biótica nós não temos nem mais um ano, já estamos comprometendo a habitabilidade do planeta. Nós estamos em condição terminal de enfermidade de Gaia, por isso as mudanças climáticas. A reação que nós temos que ter é uma reação exponencial, uma reação de multiplicação, além da geométrica. E a humanidade tem capacidade, eu tenho certeza que sim. Sabe por quê? Porque em agosto do ano passado, isso só para dar um exemplo, o povo de um país na África Oriental chamado Etiópia plantou 353 milhões de árvores em 12 horas. É um país que tem 109 milhões de habitantes, ou seja, seria equivalente a cada habitante plantar três mudas de árvore. E a China, nos últimos 25 anos, plantou uma área de floresta equivalente ao que o Brasil destruiu nos últimos 40 anos, 800 mil km².

Claro, esses plantios têm problemas, não vingou tudo, a mesma coisa da Etiópia, várias mudas vão morrer. Mas o fato é, como humanidade podemos conseguir se quisermos. Se a gente se colocar, somos mais de sete bilhões de seres com a capacidade cognitiva, a capacidade de mudar o mundo a ponto de gerar uma nova era geológica, chamada antropoceno. O ser humano, essa cultura que tomou o planeta, essa tal de civilização tecnológica, tem, hoje, a mesma competência que as eras geológicas de milhões de anos do passado tinham para mudar o planeta, só que temos feito no sentido destrutivo. Nós estamos propondo com esse grupo que nós somos capazes de replantar Gaia, usando uma expressão cunhada por uma amiga e ativista, a Suprabha Seshan, da Índia. Ela é do Gurukula Botanical Sanctuary, que fica em Kerala, na parte ocidental da Índia e faz um belo trabalho de resgate de plantas e restauração ecológica de florestas. E ela tem esse lema: ‘Temos que ‘reajardinar’ a biosfera’, gardening back the biosphere. Esse conceito transmite tudo que quer ser e é: uma horticultura ecológica.

Nós precisamos fazer um trabalho enorme de reparação de Gaia, e nos é facultado fazer esse trabalho por conta de uma tecnologia absolutamente fantástica da natureza chamada semente. As pessoas raramente param para se dar conta da semente. Claro, você come no seu cereal todo dia. Mas a semente é um milagre tecnológico – se você olhar por qualquer ângulo, se você pegar uma semente e estudá-la, entender o que tem dentro de uma semente, como ela funciona. Pegaram um sarcófago do Egito com 3 mil anos de idade, tinha sementes dentro, plantaram e germinaram. Imagina um carro parado 3 mil anos, você chegar lá e tentar dar partida no carro. Nada. Na verdade, não encontraremos um carro, vai ser uma ruína metálica irreconhecível depois de 3 mil anos. Pense, uma estrutura que tem alguma coisa viva dentro dela, tem um embrião vivo, durar 3 mil anos e você botar na terra com água, sol e germinar! Eles germinaram sementes, encontradas em um sarcófago, de uma palmeira que estava extinta na natureza. Essa tecnologia nós não temos, é a tecnologia de Gaia. Gaia já passou por muitos cataclismos e não existe um ser vivo que não tenha um propágulo de reprodução. As plantas têm sementes, os fungos têm os esporos, as bactérias têm os cistos, os animais têm ovos e desenvolvimento como nós. E isso está tudo na nossa mão, demonstrado viável. A Etiópia foi lá e plantou 353 milhões de árvores.

Eu fiz uma conta usando a mesma taxa de plantio desse dia verde na Etiópia. Se a humanidade inteira fizer – claro que tem gente que não vai poder plantar, que vive em lugares gelados –, mas fazendo as coisas de maneira generosa, em dois meses nós plantamos um trilhão de árvores no planeta inteiro. Dois meses. Então, por que não estaria ao alcance? Está ao alcance dessa humanidade, dessa geração. E a gente ainda [pode] usar a tecnologia para acelerar, para plantar em lugares que hoje não são apropriados para o plantio de árvores, como os desertos, por exemplo. Com a teoria da bomba biótica, estamos mostrando que é possível porque a natureza fez isso ao longo de milhões de anos. Nós podemos acelerar o processo, a gente sabe como, porque aprendemos nos ecossistemas que hoje funcionam, ou que funcionavam, e estão sendo destruídos agora.

Nós não queremos fazer uma coisa que só nós sabemos. A gente quer compartilhar, a gente quer juntar, a gente quer unir, puxar todas as capacidades e competências, que não são poucas, que tem na Terra, inclusive, e especialmente, as dos indígenas. Porque eles têm uma capacidade de síntese que nos remete à matemática, que nos sugere elegância. A demonstração de um teorema em poucas linhas tende a ser vista pelos matemáticos como uma demonstração elegante. E não é elegante da moda, nem elegante da frivolidade, é elegância genuína do poder da simplicidade, como E=mc² do Einstein. Uma equação simples e que dá conta de processos grandiosos. Isso eu vejo na sabedoria indígena. Toda essa complexidade que eu estou falando aqui, intelectivamente, dos sistemas vivos, dos mecanismos, das maquinarias, os indígenas têm uma competência em sintetizar em uma frase, em uma sabedoria que é potente, é autoexplicativa e que muitas vezes usa conceitos da fábula e, portanto, captura a imaginação das pessoas, o cérebro direito, a narrativa, a contação de história. Ali, embutido naquela semente de sabedoria, tem toda essa complexidade que eu, aqui do meu lado da ciência reducionista, estou cavando na terra que nem um tatu, como disse um dia Davi Kopenawa. Todo esse conhecimento detalhista, minucioso, com microscópio, é empacotado em uma frase pelos sábios indígenas, com sabedoria, com poesia. Não que seja inútil [o conhecimento científico], ao contrário. A gente pode com a ciência esmiuçar, cavar como um tatu, essa potência da simplicidade e da elegância que os indígenas têm ao descrever como funciona Gaia, ao descrever como funciona a vida, não só Gaia. Como funciona também a cultura, uma cultura que não é divorciada da mãe Terra, da mãe corpo, ela é integrada, ela tem uma relação de amizade, não de hostilidade, de guerra, de luta, mas, ao contrário, de amizade, de embrace, de abraçar. E essa conexão é urgente e indispensável porque, se eu pegar toda a nossa sabedoria teórica ou prática ou tecnológica ou de engenharia e tentar resolver o problema da Terra, como muitos estão propondo – geoengenharia, de jogar poeira lá na estratosfera para esfriar o planeta, botar um espelho no espaço, jogar ferro no oceano para fertilizar as algas –, tudo isso é loucura, é distopia pura. Vai levar a gente a destruir mais rápido o resto que ainda sobra da parte viva de Gaia por estar entrando em conflagração ignorante com a complexidade astronômica de funcionamento, de estrutura da mãe Terra.

#Envolverde



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